A reformulação do sistema tributário brasileiro traz mudanças relevantes para quem atua no agronegócio, especialmente no que diz respeito aos fertilizantes. Se você é produtor de médio ou grande porte, é hora de revisar contas, projetar cenários e ajustar o planejamento financeiro. Já a agricultura familiar permanece protegida pelas novas regras.
A chamada Reforma Tributária Sustentável, proposta pelo Governo Federal, tem como objetivo simplificar a cobrança de impostos no país. No entanto, no caso dos insumos agrícolas, essa simplificação vem acompanhada de um aumento na carga efetiva, sobretudo para lavouras comerciais.
O fim da “tributação zero” e a chegada do IVA
Com a criação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), que juntos compõem o novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA), a alíquota padrão deve girar em torno de 28%.
Embora o agronegócio conte com uma redução de 60% sobre essa alíquota cheia, os fertilizantes químicos deixam de ter isenção total. Na prática, isso significa que médios e grandes produtores passam a arcar com uma nova incidência tributária sobre um dos principais componentes do custo de produção.
O resultado é direto: aumento de despesas na lavoura e necessidade de maior controle financeiro.
O peso da nova carga tributária nas lavouras
Até então, a cadeia de fertilizantes contava com benefícios fiscais que reduziam significativamente o impacto dos tributos. Com a mudança, o cenário se altera de forma expressiva.
De acordo com estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre os efeitos da reforma no agro, a participação dos fertilizantes na carga tributária pode saltar de cerca de 5% para até 28%. Trata-se de uma elevação considerável para a estrutura de custos das propriedades.
Como os fertilizantes representam aproximadamente 25% dos gastos em culturas de grande escala, como soja e milho, a nova sistemática pode acrescentar entre 2 e 3 pontos percentuais ao custo total da safra.
Embora os produtores possam recuperar créditos tributários ao longo do tempo, haverá pressão sobre o fluxo de caixa, especialmente durante o período de transição previsto até 2032. A exceção continua sendo o pequeno produtor, que permanece isento conforme o texto da reforma.
Bioinsumos ganham espaço no novo cenário
Com margens mais apertadas nos fertilizantes convencionais, os bioinsumos passam de alternativa complementar a estratégia central de manejo.
Produtos à base de microrganismos, biofertilizantes e outras soluções biológicas vêm ganhando espaço não apenas pelo apelo ambiental, mas também pelo potencial de reduzir custos e aumentar a eficiência produtiva. Em culturas como a soja, já há registros de incremento de produtividade associado ao uso dessas tecnologias.
Segundo especialistas do setor, o momento favorece produtores que investem em inovação e diversificação de insumos, buscando maior previsibilidade e menor dependência da adubação química tradicional.
Além disso, políticas públicas voltadas à sustentabilidade reforçam essa tendência. Programas como o Plano Safra têm ampliado o acesso a crédito para práticas agrícolas de menor impacto ambiental, incentivando a adoção de tecnologias biológicas.
Estratégias para proteger o caixa da fazenda
Diante desse novo ambiente tributário, a gestão financeira se torna ainda mais estratégica. Algumas ações podem ajudar a reduzir riscos e preservar a rentabilidade:
1. Reestruture o fluxo de caixa
Considere o prazo de recuperação dos créditos do novo IVA e ajuste o planejamento financeiro para evitar descapitalização no curto prazo.
2. Amplie o manejo biológico
Avalie a substituição parcial de fertilizantes químicos por bioinsumos, diminuindo a exposição a produtos com maior carga tributária.
3. Busque crédito com viés sustentável
Linhas de financiamento voltadas a práticas regenerativas podem oferecer condições mais atrativas de juros.
4. Acompanhe a regulamentação
As definições finais no Congresso ainda podem trazer ajustes. Estar atento às atualizações evita perda de prazos ou benefícios.
Perguntas frequentes
Os fertilizantes continuam isentos de impostos?
Não. Eles passam a contar com redução de 60% sobre a alíquota padrão do IVA, mas deixam de ter isenção total para a maioria dos médios e grandes produtores.
Qual o impacto estimado no custo de produção de soja e milho?
As projeções indicam acréscimo de aproximadamente 2 a 3 pontos percentuais no custo total da safra.
A agricultura familiar será afetada?
Não. O texto da reforma mantém a isenção para pequenos produtores, preservando a viabilidade econômica desse segmento.
Em síntese, a reforma tributária altera de forma significativa a estrutura de custos do agronegócio brasileiro. Para médios e grandes produtores, o desafio será equilibrar caixa, eficiência produtiva e inovação tecnológica. Já quem se antecipa e ajusta o planejamento tende a atravessar esse período de transição com maior segurança e competitividade.