Exportações de frutas podem crescer até 40% até 2030 com acordo UE–Mercosul

Fruticultura desponta como um dos segmentos mais beneficiados do agro brasileiro

Assinado no último sábado (17), em Assunção, capital do Paraguai, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia abre um novo horizonte de oportunidades para a fruticultura brasileira. Com a redução gradual das tarifas de importação — hoje próximas de 10% para diversas frutas — o setor tende a ganhar competitividade no mercado europeu nos próximos anos.

A Europa já é o principal destino das frutas produzidas no Brasil. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que, no ano passado, os embarques para o continente cresceram 12,8% em valor, totalizando US$ 967 milhões, e 19,1% em volume, com 949 mil toneladas exportadas. A pauta inclui frutas como manga, melão, limão, abacate, uva, melancia, maçã e mamão.

No caso da uva, a tarifa de 11% será eliminada assim que o acordo entrar em vigor. Para outras frutas — como abacate, limão, melão e melancia — a retirada dos impostos ocorrerá de forma gradual, em prazos que variam de sete a dez anos. A maçã terá o período mais longo, com isenção total prevista em até uma década.

“A redução das tarifas tende a tornar o produto brasileiro mais acessível, aumentar a competitividade e estimular o consumo no mercado europeu”, afirma Luiz Roberto Barcelos, diretor da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas).

Segundo ele, até agora o custo tarifário colocava o Brasil em desvantagem frente a concorrentes da América Central e de países sul-americanos como Peru, Equador e Colômbia, que já contam com benefícios por meio do Sistema Geral de Preferências (SGP) da União Europeia. “Com o acordo, o cenário muda de forma positiva para o Brasil”, destaca.

Acordo pode acelerar crescimento do setor

Para Patrícia Cesarino, engenheira agrônoma e gerente de marketing da Ascenza Brasil, o tratado representa um ponto de inflexão para o agronegócio nacional. “A redução e a eliminação das tarifas criam um ambiente favorável para ampliar a presença das frutas brasileiras na Europa, além de dar mais previsibilidade, atrair investimentos e gerar valor ao longo de toda a cadeia produtiva”, avalia.

Ela ressalta que o desempenho recente do setor indica que o Brasil está preparado para avançar. “Trata-se de um mercado exigente, maduro e de alto valor agregado, no qual o país tem condições de crescer de forma sustentável, aumentando volumes, receita e a oferta de frutas frescas de qualidade”, afirma.

Barcelos acrescenta que a fruticultura brasileira atua de forma complementar à produção europeia, o que reduz conflitos comerciais. “Exportamos melão e melancia em períodos de entressafra na Europa, além de frutas tropicais que não são produzidas localmente durante todo o ano”, explica.

Receita pode chegar a US$ 1,8 bilhão até 2030

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) estima que o faturamento das exportações de frutas cresça cerca de 40% até 2030, alcançando US$ 1,8 bilhão. Em 2025, segundo a Abrafrutas, o setor atingiu US$ 1,45 bilhão em vendas externas, renovando o recorde pelo terceiro ano consecutivo, com avanço de 12% em valor e 19,6% em volume.

Principais frutas exportadas pelo Brasil em 2025:

  • Manga: US$ 335 milhões (queda de 4%)
  • Melão: US$ 231 milhões (alta de 24,9%)
  • Limão e lima: US$ 199 milhões (crescimento de 1,5%)
  • Uva: US$ 158 milhões (leve recuo de 0,13%)
  • Melancia: US$ 115 milhões (expansão de 57,1%)

Com o acordo UE–Mercosul, além do aumento dos embarques, o setor deve ampliar a diversidade de produtos exportados e a entrada de divisas no país. O impacto tende a ser especialmente relevante para o Nordeste, região que concentra grande parte da produção de frutas destinadas ao mercado internacional, destaca Barcelos.

Como se preparar para exportar frutas

Para produtores e agroindústrias que enxergam no acordo a chance de iniciar ou ampliar a atuação no mercado externo, a preparação é fundamental. Monnike Garcia, consultora do Programa AgroBR — iniciativa da CNA em parceria com a ApexBrasil — ressalta que o processo de internacionalização exige planejamento.

“É essencial conhecer as exigências para exportação, atender às certificações necessárias, estruturar estratégias comerciais e posicionar o produto de forma competitiva, destacando seus diferenciais”, orienta.

Ela também enfatiza a importância da agregação de valor. “Transformar frutas em geleias, sucos ou polpas amplia significativamente as oportunidades de negócio em comparação à venda apenas do produto in natura”, afirma. Certificações como produção orgânica, Indicação Geográfica e sistemas de rastreabilidade também são apontadas como diferenciais estratégicos para acessar e consolidar espaço no mercado europeu.