Exigências de salvaguardas chinesas podem alterar a dinâmica do mercado brasileiro de exportação de carne bovina

A adoção de um sistema de cotas com sobretaxas elevadas pode tornar o Brasil ainda mais sensível às decisões de compra da China e provocar mudanças relevantes no mercado global de carne bovina.

No último dia de 2025, o governo chinês anunciou de forma antecipada a conclusão da investigação de salvaguarda e oficializou um novo regime tarifário para as importações de carne bovina. A medida, que entra em vigor a partir de 2026 e terá validade até 2028, estabelece cotas anuais por país exportador. Dentro desse limite, as vendas seguem sujeitas à tarifa regular. No entanto, os volumes que ultrapassarem a cota passam a pagar uma sobretaxa adicional de 55%, somada ao imposto atual de 12%, elevando a carga tributária total para cerca de 67%.

Na avaliação da DATAGRO Pecuária, o novo modelo não inviabiliza as exportações brasileiras para a China, mas impõe um limite físico e econômico claro à expansão das vendas. O principal impacto decorre do fato de que o Brasil já embarca volumes superiores à cota definida, o que faz com que uma parcela relevante da carne brasileira perca competitividade assim que o teto anual for alcançado.

Brasil é o mais exposto entre os grandes exportadores

Atualmente, o Brasil ocupa a posição de maior fornecedor de carne bovina para a China e também é o país mais dependente desse mercado. Entre janeiro e novembro de 2025, aproximadamente 54% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil teve como destino o mercado chinês. No período, os embarques totalizaram cerca de 1,33 milhão de toneladas, enquanto a cota estabelecida para 2026 é de 1,11 milhão de toneladas.

Na prática, isso indica que uma fatia expressiva das exportações brasileiras deverá ultrapassar o limite anual e, consequentemente, ficará sujeita à sobretaxa.

Em comparação com outros grandes exportadores, como a Austrália — cuja dependência da China gira em torno de 17% das exportações — o Brasil apresenta menor diversificação de destinos, o que amplia sua vulnerabilidade a alterações na política comercial chinesa.

Efeito imediato: maior volatilidade e mudanças no calendário de compras

A implementação das salvaguardas tende a modificar o padrão de compras da China nos próximos anos. Um dos efeitos mais prováveis é a antecipação das importações, com importadores chineses acelerando aquisições no início do ano para assegurar volumes dentro da cota antes que o limite seja atingido.

Segundo a DATAGRO Pecuária, esse movimento pode gerar um impulso temporário nos preços e nos embarques durante o primeiro semestre. Contudo, após o preenchimento da cota, a tendência é de forte desaceleração das compras, o que aumenta a volatilidade do mercado internacional e pode pressionar os preços nos períodos seguintes. Como resultado, o segundo semestre — tradicionalmente mais favorável às exportações brasileiras — pode perder força.

Não se trata de um colapso, mas de um desafio estrutural

Apesar das preocupações, a DATAGRO avalia que o novo regime não representa um colapso do mercado brasileiro de carne bovina, mas sim um problema estrutural relevante. Até então, as exportações para a China eram limitadas sobretudo por fatores como preço, demanda e logística. A partir de agora, passa a existir também um teto regulatório explícito.

Além disso, a China não promoveu uma redução drástica no volume total importado. Outros fornecedores relevantes — como Argentina, Uruguai, Estados Unidos e Nova Zelândia — não possuem oferta suficiente para substituir integralmente Brasil e Austrália, o que mantém o mercado global relativamente ajustado.

Nesse cenário, o déficit crescente de carne bovina nos Estados Unidos, decorrente da baixa reposição de rebanho, tende a atuar como um fator de compensação parcial, absorvendo parte do volume brasileiro que eventualmente deixe de ser direcionado à China.

Impacto sobre a arroba do boi tende a ocorrer de forma gradual

Nos últimos anos, a China desempenhou papel fundamental na absorção do excedente de carne bovina do Brasil, funcionando como um importante mecanismo de equilíbrio em períodos de aumento da produção. Com a imposição de um teto rígido, essa função passa a ser limitada.

Isso não indica uma queda imediata ou desordenada da arroba do boi. O impacto tende a ser mais gradual e pragmático, refletindo-se em menor capacidade de reação dos preços em ciclos de maior oferta. O cenário aponta para pressão no médio prazo, com altas mais curtas, maior dificuldade de sustentação dos preços e aumento da sensibilidade do produtor independente às decisões da indústria frigorífica.

Reação do setor e posicionamento do governo brasileiro

Entidades representativas do setor, como a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), avaliam que a medida altera de forma significativa as condições de acesso ao mercado chinês e exige uma reorganização dos fluxos de produção e exportação.

As instituições ressaltam ainda a relevância da pecuária bovina para a economia brasileira, atividade responsável por gerar renda em milhares de municípios e sustentar cerca de 7 milhões de empregos diretos e indiretos.

O governo brasileiro, por meio do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), informou que seguirá atuando em coordenação com o setor privado e manterá diálogo com as autoridades chinesas, tanto em âmbito bilateral quanto no contexto da Organização Mundial do Comércio (OMC), com o objetivo de reduzir os impactos da medida e defender os interesses dos produtores e trabalhadores do setor.