Com o encerramento do período de plantio cada vez mais próximo, o Brasil caminha para registrar mais uma safra recorde de soja, segundo projeções da consultoria DATAGRO. A estimativa indica que a colheita do ciclo 2025/26 poderá alcançar 182,9 milhões de toneladas, consolidando o país como líder global na produção e exportação da oleaginosa.
De acordo com os dados mais recentes da DATAGRO Grãos, até o dia 12 de dezembro, aproximadamente 94% da área prevista para a cultura já havia sido semeada. Apesar do avanço expressivo, o ritmo do plantio permanece inferior ao observado no mesmo período do ano anterior, quando 97,0% da área já estava implantada, além de ficar abaixo da média histórica de 96,6%.
Alguns estados ainda registram atrasos pontuais nos trabalhos de campo, especialmente Goiás, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Maranhão. Em contrapartida, regiões como Minas Gerais e Bahia apresentam desempenho acima da média nacional. Segundo a consultoria, a escassez de chuvas nos últimos dias, principalmente nas áreas do Centro-Sul, contribuiu para a desaceleração do plantio. A expectativa, no entanto, é de melhora nas condições de umidade do solo com a confirmação das precipitações previstas para dezembro.
Mesmo com ajustes no calendário agrícola, as perspectivas de produção seguem bastante positivas. A DATAGRO projeta uma área plantada de 49,25 milhões de hectares, com produtividade média estimada em 3.713 quilos por hectare. Caso os números se confirmem, a produção será cerca de 5% superior à safra revisada do ciclo anterior, que totalizou 173,5 milhões de toneladas.
Do volume total esperado, a consultoria estima que 118,0 milhões de toneladas sejam destinadas ao mercado externo, mantendo o Brasil com ampla vantagem na liderança das exportações globais de soja.
O crescimento da área cultivada ocorre de maneira relativamente equilibrada entre as principais regiões produtoras do país, com destaque para o Rio Grande do Sul. Após enfrentar severos impactos climáticos no ciclo passado, o estado deve registrar uma produção de 22,74 milhões de toneladas, com produtividade média projetada de 3.300 kg por hectare, sinalizando recuperação significativa.
As projeções da DATAGRO são mais otimistas do que as estimativas de outros órgãos. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) prevê uma safra brasileira de 175,0 milhões de toneladas, enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) trabalha com um volume de 177,0 milhões de toneladas.
Vendas antecipadas seguem lentas, mas margens permanecem positivas
No que diz respeito à comercialização, o ritmo de vendas antecipadas da safra 2025/26 continua abaixo do padrão histórico. Até o dia 5 de dezembro, os produtores haviam negociado 28,3% da produção estimada, percentual inferior aos 32,6% registrados no mesmo período do ano anterior e também abaixo da média dos últimos cinco anos, de 33,7%.
Com base na atual estimativa de produção da DATAGRO, esse percentual representa cerca de 51,7 milhões de toneladas já comercializadas. Apesar do avanço mais lento nas vendas, a consultoria avalia que a rentabilidade bruta da soja deve permanecer positiva na maior parte das regiões produtoras, marcando o 20º ano consecutivo de resultados favoráveis para o setor.
Esse cenário é sustentado pela relação entre custos de produção, produtividade esperada e receitas projetadas, que ainda garantem margens consideradas atrativas. As estimativas iniciais apontam lucratividade bruta de 46% no oeste do Paraná, 17% no sul do Mato Grosso e 25% no sudoeste de Goiás. Recuperações mais expressivas são esperadas no norte do Rio Grande do Sul, que deve sair de margem negativa no ciclo anterior para 25%, e no sul do Mato Grosso do Sul, onde a margem projetada avança de 13% para 21%.
Volatilidade deve continuar no mercado em dezembro
Para a segunda quinzena de dezembro, a avaliação da DATAGRO é de manutenção da volatilidade observada no mercado ao longo de novembro. No cenário internacional, os exportadores brasileiros devem enfrentar um ambiente ainda desafiador, marcado pela combinação entre uma demanda global aquecida, em função de uma safra menor nos Estados Unidos, e níveis elevados de estoques norte-americanos.
Outro fator monitorado é a possível retomada das compras dos Estados Unidos, diante da expectativa de aquisições por parte da China após a formalização do acordo comercial entre os dois países. Apesar disso, a consultoria ressalta que o ambiente externo segue carregado de incertezas. As compras chinesas continuam abaixo das 12 milhões de toneladas inicialmente anunciadas, enquanto a oferta global segue em expansão na América do Sul e em outras regiões produtoras. Para o ciclo 2025/26, a expectativa é de relativa estabilidade na produção mundial.
No mercado interno, o Brasil enfrenta projeções de crescimento econômico mais moderado, além de desafios fiscais e dificuldades no fluxo de entrada de divisas em comparação ao ano anterior. Por outro lado, o consumo interno e externo do complexo soja permanece firme, com destaque para o óleo de soja, impulsionado pela adoção da mistura obrigatória de biodiesel B15, em vigor desde 1º de agosto.
Também ganham relevância os desafios logísticos, como fretes e capacidade de armazenagem, diante da perspectiva de mais uma colheita recorde. A menor disposição de venda por parte dos produtores, somada à demanda consistente para processamento e exportação, tende a manter um mercado altamente regionalizado.
Segundo a DATAGRO, esse conjunto de fatores deve sustentar a volatilidade e a diferenciação regional dos preços, mas há expectativa de alguma recuperação nas cotações da soja ao longo de dezembro, encerrando o ano com um cenário ainda dinâmico para o setor.