Acordo UE–Mercosul impulsiona agronegócio brasileiro

Grãos e proteínas ganham espaço no mercado europeu, enquanto café industrializado passa a ter vantagens tarifárias

Depois de mais de três décadas de negociações, representantes de alto nível da União Europeia (UE) e do Mercosul se reuniram no último fim de semana, no Paraguai, para formalizar um novo acordo comercial entre os dois blocos. A parceria estabelece uma ampla área de livre-comércio que engloba cerca de 720 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 22 trilhões — aproximadamente 20% da economia mundial.

De forma geral, o tratado determina que o Mercosul elimine tarifas sobre 91% dos produtos europeus ao longo de até 15 anos. Já a União Europeia se compromete a retirar tarifas de 95% dos bens originários do Mercosul em um prazo de até 12 anos. Embora os efeitos do acordo sejam graduais e de longo prazo, o agronegócio brasileiro desponta desde já como um dos setores mais favorecidos.

Relação comercial Brasil–UE mostra equilíbrio recente

Levantamento da consultoria DATAGRO, divulgado pelo Broto Notícias, indica que o comércio entre Brasil e União Europeia apresentou relativo equilíbrio em 2025.

Impulsionada principalmente pelo avanço das exportações agropecuárias, a balança comercial brasileira com o bloco europeu evoluiu de um déficit de US$ 5,03 bilhões em 2015 para um resultado negativo bem mais modesto, de US$ 480 milhões no ano passado. Entre 2022 e 2024, inclusive, houve períodos de superávit.

Nos últimos dez anos, as vendas externas de produtos agropecuários brasileiros para a UE praticamente dobraram, atingindo o recorde de US$ 25,21 bilhões em 2025. Esse montante corresponde a 50,6% de tudo o que o Brasil exportou ao mercado europeu no período.

Café industrializado ganha protagonismo

Com a valorização dos preços internacionais, o café superou o complexo soja e se tornou, em 2025, o principal produto agropecuário brasileiro exportado para a União Europeia, respondendo por 29,2% da receita do setor.

Segundo a DATAGRO, o acordo não deve provocar mudanças relevantes nas exportações de café verde, já que o produto atualmente entra no mercado europeu sem tarifas. No entanto, a consultoria destaca que as reduções tarifárias previstas podem favorecer itens com maior valor agregado, como café torrado não descafeinado e, sobretudo, café solúvel.

Essas mudanças tendem a aumentar a competitividade do Brasil frente a outros exportadores, abrindo espaço para ampliar a presença nacional em nichos ainda pouco explorados. “Cria-se uma oportunidade para avançar em segmentos nos quais a participação brasileira ainda é limitada”, avalia a DATAGRO.

Grãos brasileiros mais competitivos na Europa

O acordo também deve fortalecer a posição dos grãos brasileiros no mercado europeu, especialmente milho e sorgo. O tratado estabelece uma cota conjunta de importação livre de tarifas para esses dois produtos, reconhecendo sua alta substituição entre si.

A implementação da cota será escalonada ao longo de cinco anos, até alcançar 1 milhão de toneladas. Tradicionalmente, a União Europeia importa volumes reduzidos de sorgo, mas figura entre os maiores compradores globais de milho. Em 2024, o bloco importou cerca de 20 milhões de toneladas do grão e, entre janeiro e outubro de 2025, outras 15,4 milhões de toneladas. A Ucrânia respondeu por 64% desse volume, seguida por Estados Unidos e Brasil, ambos com 8%.

De acordo com a DATAGRO, a nova cota equivale a 32% do milho exportado pelo Brasil à UE em 2025 e cerca de 5% das importações totais do bloco em 2024, indicando potencial tanto para consolidação quanto para expansão da participação brasileira.

No caso da soja, o acordo não traz alterações, já que o produto já é importado pela UE sem incidência tarifária. Atualmente, o bloco europeu é o segundo maior destino da soja brasileira, atrás apenas da China, com destaque para países como Espanha, Holanda e Itália.

Carne bovina e frango com maior acesso ao mercado europeu

Hoje, a União Europeia responde por aproximadamente 3,5% das exportações brasileiras de carne bovina — um volume relativamente pequeno, mas de alto valor agregado. Do ponto de vista europeu, entretanto, a carne brasileira representa cerca de 25% de tudo o que o bloco importa, reforçando a relevância do Brasil como fornecedor externo estratégico.

Atualmente, os exportadores sul-americanos enfrentam uma tarifa de 12,8%, acrescida de € 2,21 por quilo, além da Cota Hilton, que reserva ao Brasil 10 mil toneladas com tarifa de 20% para cortes específicos. Com o novo acordo, será criada uma cota de 99 mil toneladas com tarifa reduzida para 7,5%, além da eliminação da tarifa aplicada à Cota Hilton.

Para a DATAGRO, essa mudança amplia o potencial de escoamento da produção brasileira, especialmente em um cenário de incertezas quanto ao ritmo das exportações para a China.

No setor de aves, o impacto é ainda mais expressivo. O modelo atual — que prevê uma cota anual de 15 mil toneladas com tarifa zero e taxa de € 1.024 por tonelada para volumes excedentes — será substituído por uma cota de 180 mil toneladas anuais para o Mercosul, totalmente isenta de tarifas.

Atualmente, a carne de frango exportada pelo Brasil para a UE representa pouco mais de 2% do total embarcado pelo país, enquanto cerca de 25% das importações europeias da proteína têm origem brasileira.

Etapas finais e desafios políticos

Apesar do avanço nas negociações, a entrada em vigor do acordo ainda depende de trâmites políticos dentro da União Europeia. Conforme acompanhamento da DATAGRO, o Parlamento Europeu solicitou ao Tribunal de Justiça da União Europeia uma análise para verificar se as alterações propostas estão em conformidade com os tratados do bloco, o que suspendeu temporariamente o processo de ratificação.

Após o parecer do Tribunal, o acordo deverá ser votado no Parlamento Europeu e, posteriormente, ratificado pelos parlamentos nacionais dos países-membros. Também está prevista a criação de um Comitê de Monitoramento, responsável por acompanhar a implementação e os impactos das medidas acordadas.